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Em 2008, jornais brasileiros destacam a importância de efetivar os direitos infanto-juvenis. No entanto, menos de 1/3 das notícias analisadas pela ANDI entre junho e julho, quando o ECA completou a “maioridade”, fez referência a políticas públicas ou à elaboração do orçamento
Desde a sua promulgação, em 1990, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) é objeto de avaliações controversas que ora o reconhecem pela sua importância, ora o criticam pela suposta ineficácia do seu amparo legal. Dezoito anos depois, o documento parece ter alcançado o respaldo de diversas esferas sociais, dentre as quais se destaca a imprensa. Ainda assim, especialistas no assunto afirmam que grande parte dos brasileiros desconhece as diretrizes, as normas, os direitos e os deveres previstos pelos 267 artigos da lei, responsáveis por conferir "prioridade absoluta" aos menores de 18 anos. Apesar dos reconhecidos avanços, ainda há muito a ser feito para sanar as deficiências que impedem a real efetivação do ECA.
Argumentos como esses foram recorrentes nos textos publicados pelos meios de comunicação nacionais entre junho e julho de 2008, quando o Estatuto atingiu a maioridade. Neste período, a equipe da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI) localizou e avaliou 65 matérias sobre a legislação, distribuídas em 22 jornais de 14 estados brasileiros: Rio Grande do Sul, Distrito Federal, Rio Grande do Norte, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rio de Janeiro, Tocantins, São Paulo, Santa Catarina, Roraima, Goiás, Espírito Santo e Paraíba.
Comemoração, sim, mas com espaço para críticas
O
ECA, cujo aniversário é comemorado no dia 13 de julho, foi lembrado
pela imprensa como um dos passos mais significativos na defesa dos
direitos da infância já dados no Brasil. De modo geral, a cobertura da
data teve um tom positivo, repleto de elogios ao texto, referenciado
como “uma das legislações mais avançadas do mundo no que se refere às
garantias individuais”. Entre todas as matérias analisadas, apenas
quatro criticavam abertamente o seu conteúdo, sob a justificativa de
que ele teria um “tom marcadamente paternalista, a par de não funcionar
como instrumento preventivo e correcional eficaz”. O olhar negativo
sobre o Estatuto foi veiculado exclusivamente por jornais de circulação
nacional, especialmente os paulistas.
Ainda que positivas, as
notícias publicadas pela mídia em geral não deixaram de indicar os
inúmeros entraves que comprometem o cumprimento da lei. As críticas
mais recorrentes se referiram à adoção de medidas sócio-educativas,
prevista no artigo 112. “Dezoito anos após a promulgação do Estatuto da
Criança e do Adolescente, especialistas apontam que o capítulo
referente à prática de ato infracional é pouco compreendido pela
sociedade e até mesmo pelo judiciário e é o que menos saiu do papel”.
Apesar
das limitações, a imprensa reconhece os avanços já alcançados na
implementação de políticas que visam a garantir os direitos previstos
pela lei, repercutindo diretamente na melhoria das condições de vida
dos pequenos. Como exemplos de temas que tiveram abordagens positivas
podem ser citados o combate ao trabalho infantil, a universalização do
ensino fundamental e, principalmente, a criação e atuação dos Conselhos
Tutelares.
A ampliação e a qualificação da cobertura da imprensa
sobre os direitos infanto-juvenis são consideradas conseqüências
positivas das mudanças implementadas a partir do Estatuto – e sem
dúvida colaboram para que a sociedade compreenda melhor sua proposta.
Parte das notícias veiculadas pelos jornais do país, por exemplo,
ofereceu ao leitor uma série de relatos pessoais de crianças que
utilizaram o ECA como instrumento de transformação de sua própria
realidade.
Muitas notícias priorizaram a discussão de áreas de
direito específicas, como saúde, educação, segurança e convivência
familiar. A redução da maioridade penal foi outro tema de destaque. A
recorrência a fontes especialistas no assunto favoreceu a argumentação
contrária à idéia de que a medida pode ser uma alternativa eficiente na
redução da criminalidade.
Seguindo esta mesma linha, algumas
notícias dedicaram espaço para respostas a críticas colocadas pela
sociedade, especialmente no que se refere às medidas de reinserção
social. Depoimentos procuraram desmistificar a idéia de que tais
medidas favorecem a impunidade de adolescentes em conflitos com a lei.
Segundo os juristas e especialistas consultados pelos jornais, essa
interpretação é resultado do desconhecimento do Estatuto.
Contextualização da informação
No
que se refere à qualidade dos textos, é possível observar que a maioria
dos jornalistas, colunistas ou articulistas adotaram como prática a
utilização de elementos de contextualização que ajudam a compreender o
lugar do ECA na sociedade, tais como:
• Políticas públicas capazes de viabilizar o cumprimento do Estatuto;
• Volume de recursos destinado à execução de tais políticas;
• Comparações com outras legislações voltadas à defesa dos direitos da infância;
• Dados estatísticos sobre a realidade dessa população.
No
total de notícias analisadas, 77% traziam ao menos um dos elementos
citados acima. Mas poucos foram aquelas que utilizaram mais de um
deles. A maior parte fez menção à legislação e a dados estatísticos,
sendo que menos de 1/3 fez referência a programas ou ao orçamento
público.
Dentre as legislações mencionadas, destaca-se a
Constituição Federal, citada em sua maioria em função do artigo 227,
que estabeleceu os direitos e garantias fundamentais da criança e do
adolescente. O Código de Menores, antecedente ao ECA, foi mencionado em
11 notícias (17%). Em todas elas, o Estatuto foi considerado uma
mudança de paradigma, por ter atribuído às crianças e adolescentes o
status de sujeitos de direitos; não sendo mais reconhecidos como
simples portadores de carências.
Dentre as fontes citadas, as
organizações não governamentais e o governo foram as mais recorrentes,
com destaque para o poder executivo e para os juízes das Varas da
Infância.
Em síntese, pode se dizer que a cobertura sobre os 18 anos
do ECA aponta para uma forte aceitação do Estatuto por parte da
imprensa. Os elogios conferidos ao texto legal, as respostas
apresentadas às críticas feitas pela sociedade civil, bem como os
avanços apontados na sua implementação são indicadores que levam a crer
que o Estatuto desfruta, hoje, de uma forte aceitação entre os meios de
comunicação impressos. Ainda assim, esses mesmos veículos não deixaram
de explicitar as deficiências e limitações que impedem o cumprimento da
lei – o que é vinculado, acima de tudo, a uma maior iniciativa do poder
público na criação e implementação de políticas sociais, bem como a uma
maior conscientização da sociedade civil acerca dos direitos e deveres
conferidos à infância desde 1990.
Fonte: Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI)