Violência sexual na pauta da imprensa brasileira
Estudo produzido pela ANDI aponta que, embora ainda precisem superar alguns limites, jornais brasileiros têm avançado significativamente na qualidade da cobertura desta temática. Eventos como o III Congresso Mundial, realizado em novembro no Rio de Janeiro, e o Concurso Tim Lopes de Investigação Jornalística contribuem para dar visibilidade ao problema.
Desde 1973, quando a menina Araceli Cabrera Crespo, de oito anos, foi estuprada e brutalmente assassinada por jovens de classe média alta na cidade de Vitória (ES), em um crime que chocou o país, organizações do governo e da sociedade civil encabeçam um processo global de mobilização contra a impunidade. Ao longo desse período, a mídia tem desempenhado, ainda que de forma gradativa, papel central, seja denunciando atos de violação, seja contribuindo para o agendamento do debate em torno do problema.
De acordo com estudo realizado pela ANDI (Agência de Notícias dos Diretos da Infância), em parceria com a Childhood Brasil, entre 2000 e 2006 o espaço destinado ao abuso e à exploração sexual de meninos e meninas na imprensa brasileira cresceu 173,65%.
Mais importante do que o avanço na quantidade, porém, é o aprimoramento da qualidade do noticiário. Com uma abordagem pluralista e crítica, as reportagens vêm buscando diversificar suas fontes de informação – antes concentradas principalmente nas delegacias de polícia.
Atores como Poder Executivo, Poder Legislativo, defensorias, conselhos e autoridades de saúde, cada vez mais presentes, tendem a garantir melhor qualidade no texto jornalístico, pois estão mais diretamente relacionados à formulação de políticas públicas. Além disso, podem oferecer dados que permitem contextualizar e problematizar a questão.
A pesquisa da ANDI constatou que, em 2000, menos de 10% da cobertura oferecida pela imprensa brasileira à temática do abuso e da exploração sexual comercial abordava programas e ações governamentais de combate aos crimes sexuais. Já em 2006, o percentual de textos com esse viés subiu para 16,6%.
Por outro lado, a imprensa precisa avançar na capacidade de apresentar um panorama mais amplo do problema. O estudo mostra, por exemplo, que os jornais ainda não discutem as conseqüências do fenômeno de maneira mais abrangente. Em 2002, 16,8% das matérias sobre crimes sexuais contra crianças e adolescentes debatiam soluções para as questões retratadas, sendo que 5,25% dos textos discutiam ações implementadas pelo poder público.
A maior conquista do processo de qualificação da imprensa ocorrida entre 2002 e 2006 pode ser percebida na consistente redução de matérias que responsabilizam a vítima pela violência sofrida: de quase 18% em 2000, o percentual caiu para 2,88%. Merece destaque também o fato de que os textos que apontam causas gerais para o problema reduziram bastante no período: 21,15% contra 53,57%.
Ações integradas
- A melhoria da cobertura e, conseqüentemente, a maior mobilização da sociedade em torno do tema, coincide com uma série de eventos mundiais, que culminaram, no Brasil, com a elaboração de uma política nacional de enfrentamento ao problema. No contexto internacional, em 1996, 122 líderes de países se reuniram na Suécia para a realização do I Congresso Mundial Contra a Exploração Sexual Comercial de Crianças e Adolescentes. Cinco anos depois, em 2001, um novo encontro foi realizado, em Yokohama, no Japão, envolvendo representantes de mais de 130 nações. E, em novembro de 2008, aconteceu no Rio de Janeiro a terceira edição do Congresso, com 3.158 participantes, entre os quais 282 adolescentes, delegações de 160 países e 55 autoridades de governos.
A “Declaração do Rio de Janeiro para Prevenir e Eliminar a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes”, apresentada ao final do encontro, foi aprovada por aclamação e traça as diretrizes de um trabalho integrado entre as diferentes nações para a prevenção e erradicação da violência sexual infanto-juvenil.
Segundo o documento, somente a partir de uma ampla e articulada ação entre diversos setores sociais será possível incidir de maneira efetiva no combate ao abuso e a exploração sexual de crianças e adolescentes.
Estímulo à mídia
- Entendendo que a mídia é parte fundamental desse processo, a ANDI criou em 2000 o Concurso Tim Lopes de Investigação Jornalística, que desde então tem contribuído para a sensibilização dos profissionais de comunicação acerca do tema. Ao contrário da metodologia mais comum aos prêmios, este reconhece e apóia o que ainda é um projeto de investigação, e não a reportagem já veiculada, o que permite a participação de repórteres de veículos menores, com pouca infra-estrutura. Sua proposta é potencializar as visões e experiências do jornalismo com foco nos direitos humanos, na democracia e no desenvolvimento.
O impacto que muitas reportagens produzidas por meio da iniciativa tiveram sobre a sociedade e o fato de que várias delas terminaram conquistando outros prêmios de reportagem reforçam a idéia de que uma prática jornalística dedicada à contextualização das notícias fortalece a cidadania, pois permite que a população conheça e reivindique seus direitos.
Para saber mais:
Jornalismo investigativo: Concurso Tim Lopes: um estudo de caso sobre a atuação da imprensa no enfrentamento da violência sexual contra crianças e adolescentes / Agência de Notícias dos Direitos da Infância; Childhood Brasil (2008).