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MS ultrapassa média ideal de partos cesarianas proposta pela OMS

Número é 3,5 vezes maior. Parto humanizado pode ser uma das soluções para o problema

28/04/2008 • Prioridade Absoluta • Girassolidário (MS)

Campo Grande, 28/04/2008 - Enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) estipula como média ideal que 15% dos partos realizados sejam cesáreas, Mato Grosso do Sul apresenta índices de 52,4%. Os dados são de 2007, estão disponíveis no site da Secretaria Estadual de Saúde e fazem parte do Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC), que leva em consideração os nascimentos ocorridos na rede pública e privada de saúde, tendo por base informações dos Cartórios de Registro Civil.
Para o médico obstetra e integrante da Comissão de Parto Humanizado e do Aleitamento Materno do Hospital Regional de Mato Grosso do Sul (HRMS), Paulo Saburo Ito, o que leva uma mulher a optar pela cesárea é “uma questão cultural em relação à visão que se tem do parto, seja normal ou cirúrgico, em que se aplica o ‘quanto menos trabalho melhor’, e sendo conveniente para todos, isso se perpetua como verdadeiro”.
De acordo com Gil Tognini, médico obstetra e representante do Conselho Regional de Medicina (CRM), a cesárea muitas vezes atende mais a uma conveniência do que uma necessidade. “Muitas cesarianas são desnecessárias. Elas não têm indicação puramente médica. A indicação é de conveniência. Seja da gestante, dos seus familiares, ou até do próprio médico.”
Tognini afirma que o CRM tem incentivado a realização de partos normais e humanizados. “O parto humanizado teria como um de seus lados a presença de alguém da família, de confiança da gestante, nesses períodos: antes do parto, durante o trabalho de parto, no parto propriamente dito e no pós-parto enquanto ela estiver internada no hospital com o seu bebê. Ao meu ver é muito importante humanizar o parto, porque ela estaria com alguém conhecido ali do lado que pudesse lhe ajudar de alguma forma nessas fases da gestação.”

Parto Humanizado
Geralmente, o parto humanizado é natural e leva-se em consideração os desejos da parturiente. Neste caso é a futura mãe que escolhe o modo, local e como serão realizados os procedimentos.
“O parto é como uma sinfonia. Se uma pequena nota sai do lugar estraga toda a sinfonia.” A afirmação é da enfermeira, doutora e Livre-Docente pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Marília Largura, que questiona alguns dos procedimentos empregados durante um “alarme falso”, o que tende a perturbar o processo fisiológico do nascimento. Muitas vezes este processo é até ignorado ou mal esclarecido pelos médicos. “Eles [os médicos] manobram o parto e tomam iniciativas que atrapalham a mulher a seguir seu processo natural”, aponta.
O acadêmico de Medicina da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), João Marcos Gualberto, acredita que o parto humanizado tem influência positiva na recuperação da parturiente, pois prevê a presença de um acompanhante durante o parto. “Esse tipo de parto garante uma melhora psicológica para a gestante, pois reduz a ansiedade da paciente”, comenta. Gualberto, que pretende se especializar na área de obstetrícia, destaca a importância de se investir na humanização do parto, especialmente nos casos do nascimento do primogênito ou gravidez na adolescência.
De acordo com o presidente da Sociedade de Pediatria de Mato Grosso do Sul, Alberto Cubel Brull, a criança é a grande beneficiada quando o parto ocorre de forma natural e humanizada. “No parto normal a criança fica mais próxima da mãe em um curto espaço de tempo. Isso assegura uma diminuição na probabilidade de ela contrair algum problema nos primeiros dias de vida”, aponta Cubel.

Lei - “O Hospital Regional de Mato Grosso do Sul tem, apesar de suas limitações estruturais, se empenhado em cumprir o Programa de Humanização ao Pré-natal e Nascimento (Portaria Ministerial 569 / 01/06/2000) e a Lei Estadual 2.376 / 21/12/2001, que institui o Parto Solidário, ambos criados para garantir o direito à gestante, filho e familiares, a uma assistência de forma humanizada e segura. Para tanto, a Comissão de Parto Humanizado do HRMS tem realizado cursos que visam uma instrumentalização das gestantes e familiares”, comenta Paulo Ito.
Ilda Guimarães, gerente técnica da Saúde da Mulher da Secretaria Estadual de Saúde, admite que Mato Grosso do Sul não possui a estrutura necessária para a realização de partos humanizados. No entanto, diversas iniciativas estariam ocorrendo a fim de minimizar tal problema. “A estrutura hospitalar não é adequada e ainda é necessário mudar toda uma sistemática de atendimento a mulher desde o pré-natal”, aponta. Neste caso, isso se constitui “um trabalho que deve ser realizado ao longo do tempo, inclusive nas universidades”.
Aprovada pelo Congresso Nacional e em vigor desde abril de 2005, a Lei nº 11.108 garante às parturientes o direito à presença de um acompanhante, indicado por ela, durante o trabalho de parto e pós-parto no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). No entanto, algumas maternidades e hospitais ainda não dispõem de estrutura suficiente para cumprir a lei e muitos deles cobram para que o acompanhamento seja autorizado.

Informações Adicionais
- De 1999 a 2007 o número de cesáreas em Mato Grosso do Sul cresceu 23,3%.
- Em 2005, no Brasil, os partos cirúrgicos respondiam por 43% dos nascimentos, já os partos normais a 56,7%.
- No SUS, a taxa de cesáreas é de 40%. Nos hospitais particulares esse índice chega perto dos 90%. No ranking das cesáreas, o Brasil fica atrás apenas do Chile (Dados de 2006).
 - No dia 28 de maio 2008, foi discutido entre o Ministério da Saúde e os governos estaduais o Pacto Nacional pela Redução da Mortalidade Materna e Neonatal, onde ficou estabelecida a redução do número de cesáreas desnecessárias.
  - Em 28 de maio se comemora o Dia Nacional de Luta pela Redução da Mortalidade Materna.

Sugestão de abordagem
- Pesquisar a possibilidade da realização de um parto humanizado dentro das atuais instalações de saúde e a coerência da legislação criada com as situações reais enfrentadas pelos médicos obstetras no dia-a-dia.
- Questionar se a falta de estrutura é o único motivo pelo qual o parto humanizado ainda não é freqüente e quais tipos de ações podem incentivar essa prática.

Sugestão de Fontes
Comissão de Parto Humanizado e do Aleitamento Materno do HRMS
Dr. Paulo Saburo Ito – médico ginecologista, obstetra e integrante da Comissão
(67) 3324 1609 / 3325 1305

Sociedade de Pediatria de Mato Grosso do Sul
Dr. Alberto Cubell – médico pediatra e presidente
(67) 3321 0089

Secretaria Estadual de Saúde
Ilda Guimarães - Gerente técnica da Saúde da Mulher
(67) 3318 1704

Conselho Regional de Medicina
Dr. Gil Tognini – Conselheiro
(67) 3324 2190
(67) 9983 0862

Especialista
Marília Largura - Doutora e Livre-Docente pelo Depto. de Enfermagem da UFRJ
(11) 3865 5229